(ou: A
Night At The Opera”)
Assumo que sou “snob” em certas coisas; “snob” e penosamente
conservador!
(Já noutras sou total e apaixonadamente anarca, libertário,
ou simplesmente louco…)
Servem estas frases como introdução ao relato da minha experiencia
na sexta-feira passada, assim vocês entram no texto, e no contexto, já com uma pequena ideia de quem eu sou, ou
pelo menos da confusão que vai dentro desta cabecinha.
Na citada sexta-feira fui à Ópera; que por acaso é uma coisa
que eu adoro fazer, e que não faço tão amiúde como gostaria, o que faz com que
quando vou pareça um adolescente cheio de borbulhas a caminho do seu primeiro
encontro sexual com a Mrs. Robinson depois de ter visto a Barbarella antes de
sair de casa.
Acho que já perceberam o estado de feliz ansiedade em que me
encontrava, ainda por cima ia ver a Madame Butterfly, uma das minhas favoritas,
e, para ajudar à festa, ia entrar pela primeira vez na minha vida numa praça de
touros, a do Campo Pequeno, neste caso, e, embora seja profunda e radicalmente
anti-taurino (de bom grado me ofereço para encher de bandarilhas o lombo de
todos os amantes da tortura animal!), a verdade é que sempre gostei daquele edifício
e considero extremamente feliz a ideia de utilizar aquele espaço construído a
pensar em morte e tortura para apresentar beleza e arte, será talvez uma forma
de “redimir” o edifício.
Tudo se perfilava para que fosse uma noite memorável! (…e
foi, mas…)
Posto isto, assim estava eu ao entrar no Campo Pequeno, com
o cérebro, os sentidos e a vontade completamente abertos e desejosos de
absorver tudo!... E absorvi! Absorvi tudo, e logo à entrada, assim sem aviso, a
sangue-frio, à queima-roupa…
Neste momento estareis a interrogar-vos sobre o que é que eu
absorvi logo à entrada: talvez a imponência do edifício, a ansiosa impaciência de
todos os amantes de música que me rodeavam, ou ainda, quiçá, maviosos sons
vindos do fosso da orquestra enquanto os músicos afinavam os seus instrumentos…?
Pois não, nada disso, o que me
atingiu, com a contundência dum martelo pneumático manejado por um exímio trolha
de 130 kilos de peso que nas horas livres faz musculação, foi o cheiro a
pipocas!
PIPOCAS?! Perguntareis vocês, com
a mesma incrédula estranheza que me assaltava a mente ao mesmo tempo que o
cheiro a pipocas me assaltava as pobres narinas. Sim, pipocas!
Logo ali entre a entrada e as
escadas de acesso à bancada estava um senhor com uma daquelas máquinas portáteis,
tipo carrinho de mão, daquelas que vemos nas feiras, nas romarias, nas festas
populares; dessas! E, com um ar de felicidade alarve, várias pessoas se
dirigiam para o interior, carregadas com aqueles caixotes de cartão cheios de…
pipocas!
Ora, a mim, já no cinema essa
moda do caixote de pipocas me incomoda. Não consigo perceber essa necessidade
quase compulsiva de entrar numa sala de cinema com os braços cheios de coisas
(coisas de comer, entenda-se), como se fosse uma forma de “multi-tasking”
recreacional; sei lá, se calhar estamos tão faltos de tempo livre que o pouco
que temos o aproveitamos para simultaneamente satisfazer vários anseios e
necessidades (mas depois para combater a obesidade reduzimos o tamanho dos
pacotes de açúcar pró café…). Mas, eu, com isso não tenho nada a ver, cada um
sabe de si e tem o direito de fazer o que quiser, mas eu também tenho o direito
de assistir à porra do filme descansado, e de ouvir a banda sonora do mesmo sem
o acompanhamento em primeiro plano dos roedores de pipocas!
No dia em que me apetecer
assistir a um concerto de ruminação pego numa cadeira e vou pró prado ver as
vacas!
Mas em abono da verdade devo reconhecer
que consegui ouvir a ópera (apesar da qualidade do som, mas isso é outra
história). A verdade é que o barulho da ruminação foi inexistente, ou, pelo
menos, inaudível para mim. Mas com o cheiro tal não aconteceu, esse foi
imanente. Embora tenha que pôr a hipótese que talvez fosse apenas eu que eivado
de paranóicos pensamentos persecutórios tenha criado uma imaginária nuvem de
cheiro a pipocas que me rodeava e atormentava ao longo de todo o primeiro acto.
Costuma dizer-se que tudo na vida tem um fim e, felizmente,
o primeiro acto também… E quando as luzes se acendem, para meu grande espanto,
assisto a uma decidida e perfeitamente coreografada, invasão do recinto por um
grupo de senhores que de tabuleiro pendurado ao pescoço avançam por entre o público
anunciando em sonoras vozes (nalguns casos mais audíveis que… bem não interessa…)
os produtos que tinham disponíveis para venda que eram: queijadas de Sintra e…
já adivinharam?... é claro: PIPOCAS!
Alegre e animadamente os meus companheiros de bancada iam
fazendo sinal aos vendedores e comprando os seus produtos, aí percebi: estar
duas horas seguidas sem dar ao dente é duro, é quase castigo cruel e inusitado,
eu consigo; mas isso é porque sou gordo e o meu corpo pode roer-se a si
próprio, mas por dentro, sem espaventos, sem espectáculos, sem sons ruminantes;
silenciosamente… Aí, desisti, não vale a pena continuar a dar voltas ao tema,
as pipocas estão aqui para ficar, eu é que estou mal, pelos vistos, e quem está
mal muda-se, ou cala-se, que foi o que eu fiz (embora até esse momento não
tivesse dito nada em voz alta, que estava ali sozinho e não preciso de fazer
publicidade aos meus níveis de loucura, mas no interior do meu cérebro ouvia-se
uma arenga veemente e ininterrupta desde o primeiro bafo a pipoca).
Ao longo do segundo (e terceiro) acto assisti (só eu, o
resto do público não, que isto fazia parte de um insólito e triste espectáculo
particular) a um crescendo das dores no meu joelho, provocadas quiçá, pela
estranha posição em que me vi obrigado a estar sentado. Os assentos do Campo
Pequeno são bancadas, todos sabem que bancadas são uma coisa assim tipo escada
mas para maior onde pessoas humanas se sentam para assistir a coisas diversas (também
há um tipo específico de bancada onde grupos, muito restritos, de humanos se sentam
para inventar maneiras de lixar a vida a outros humanos e fazer umas sonecas,
mas essas estão situadas em casas para lamentar), então no Campo Pequeno também
há das tais bancadas onde pessoas humanas se sentam para assistir a coisas. Essas
bancadas estão neste momento cobertas por uma coisas assim parecidas com
cadeiras, mas tipo miniatura (estão para as cadeiras a sério assim como aquelas
garrafinhas que estão nos frigoríficos dos quartos de hotel e que são
iguaizinhas às garrafas a sério, até no preço, mas que depois quando bebes só
te dão uma coisa, assim, tipo, a memória do whisky e não o prazer de o beber, basicamente
é como se fosse uma versão homeopática da coisa). Confesso que quando entrei (e
apesar de me teres avisado acerca disso Rui) nem reparei muito nas cadeiras,
talvez por estar entorpecido física e mentalmente pelo cheiro a pipocas, apenas
procurei o meu lugar e sentei-me (… sentei-me entenda-se aqui única e
simplesmente como uma forma de expressão, porque quando o assento é do tamanho
da minha nádega esquerda, dizer sentei-me não descreve o tipo de manobra que eu
tive que executar, mas avancemos pelo texto fora com este conceito, o do
sentar, para descomplicar as coisas…). Durante a segunda parte o equilíbrio entre
o assalto da nuvem de gás pipoca e o incómodo do assentamento foi-se
invertendo, embora ao contrário do que possa parecer por tudo aquilo que disse
até aqui deixar de sentir os odores para sentir as dores não é boa transição.
Ainda bem que aquelas bancadas são tão inclinadas, mexi-me
tanto, saltitei tanto na cadeirinha alternando entre nádega e nádega no assento,
que se não fosse a inclinação a pobre moça sentada atras de mim teria tido um
torcicolo a tentar ver o espectáculo.
Eu, no fim, olhando bem para aquelas bancadas, cobertas com
aquelas cadeirinhas vermelhas, quase que me pareceram uma instalação daquela senhora
que está muito na moda e que faz assim umas coisas com sapato e panelas e
talheres assim amontoados que depois tem uns significados extremamente
profundos e complexos, que tem que ser explicados porque não são óbvios para
ninguém, mas claro que isso só acontece porque somos um bando de bestas
incultas. E na realidade que bela homenagem seria aos animais torturados e assassinados
naquele espaço: as cadeiras são vermelhas, numa clara alusão ao sangue
derramado, e o incómodo que nos tortura as nalgas durante duas horas deve
servir para sentir-mos alguma empatia pelo animal… Ou não.
Cheguei ao fim do espectáculo em grande sofrimento e
profundamente irritado; não estava irritado com o sacana do americano por
aquilo que fez à pobre rapariga, estava irritado com as pipocas. Chorei lagrimas
de sangue dum olho solitário, não pelo suicídio de Butterfly, mas pelas estúpidas
cadeiras…
Na verdade tenho que reconhecer que as minhas expectativas e
os meus desejos se cumpriram; foi uma noite memorável. Dolorosa e olorosamente memorável.
P.S. – Hoje é segunda-feira, precisei destes dias todos para
me distanciar o suficiente das pipocas para conseguir escrever esta diatribe,
mas enquanto escrevo isto no comboio que me leva de volta a casa, discretamente
cheiro a camisa para ver se já passou o cheiro a pipocas…