quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

É Napalm! É Napalm!



(Uma visão niilista sobre a época e festividades Natalícias…)



“É napalm é napalm,

Morrem criancinhas,

É napalm é napalm,

Todas queimadinhas,

(…)”



A cidade está em alvoroço! Nas redes sociais, diariamente, repetem-se as intervenções que nos dão conta do descontentamento dos cidadãos preocupados. Há perto de dois meses, pelo menos, que a publicidade nos bombardeia com ideias de gasto e sugestões de compra, para podermos usufruir de forma condigna o Natal; e na nossa cidade o que acontece? Nada. Outras cidades, com grande pompa e circunstância, já inauguraram imensas árvores de Natal, capazes algumas delas de concorrer ao livro Guiness, e o nosso Município nem uma lâmpadinha pendurou ainda; e isto apesar de os supermercados já andarem lançados a promover o bacalhau, de o bolo rei já deitar a “cabeça de fora”, e das broas castelar fazerem o seu ressurgimento anual…

É inconcebível, é inadmissível!
É justo e necessário que os exasperados cidadãos se manifestem e revoltem contra tal estado de coisas!
(Por outro lado apetece-me salientar como é bom viver numa cidade em que a máxima preocupação dos seus cidadãos é a iluminação de Natal; ou a falta dela. Mas que isto não sirva de nenhuma maneira para desculpabilizar os edis perante tão grave falha.)
Porque o que é o Natal senão esta furibunda corrida ao consumismo? A ânsia de sair pelas ruas entrando em todas as lojas gastando o dinheiro, que não temos, em coisas, que não nos fazem falta? E como fazer isso sem estarmos cobertos por esse manto de luzezinhas, habilmente dispostas em figuras diversas que nos fazem recordar a época Natalícia? Como poder gozar esse momento sem estar sob esse manto de luz que nos ajuda a aquecer a alma e a arrefecer a carteira?
Afinal o que é e, mais importante, o que representa para nós o Natal?
(E, por favor, não me venham contar a história do nascimento de Cristo; da fuga, dos romanos, do Herodes e mais o diabo a sete…)
Fundamental e basicamente, o Natal é, tão só, o momento ideal para gastar o dinheiro que não nos sobra! É a época de assistir a jantares de empresa, ou de amigos, onde vamos confraternizar com gente que não suportamos ou não queremos ver ao longo do resto do ano. É isso mesmo, é o momento de nos embriagarmos (textualmente, que se não o fizermos não chegamos ao fim do dito jantar) de sentimentos de paz e de amor, fictícios (falsos, para quem não percebeu…), é a época de fazer grandiosos (e, obviamente, mais uma vez falsos) desejos de felicidade aos imbecis que nos lixam o juízo ao longo de todo o ano. É o momento de inundarmos, e sermos inundados, as redes sociais com “cartões de Natal” feitos com fotografiazinhas fofas do nosso entorno familiar, cheios de boas intenções e desejos, falsos na sua maioria, de boaventuras, a gente a quem na realidade apenas desejamos uma morte longínqua… Ah, que felicidade; paz e amor na terra… Pelo menos temporariamente… Para todos… ?! … Para alguns… Para os que quero, ou que me apetece… Ou não, que se lixe!
Mas aparte toda esta encenação que mais fazemos para marcar esta temporada “tão especial”?...
Comemos!

Degustamos pratos únicos e especiais, pelos quais passamos os outros onze meses a babar… Pratos únicos e tão cheios de umami (que não faço a mínima ideia do que seja, mas é adjectivo muito usado na gastronomia moderna e internacional para definir coisas muito especiais e saborosas, ou pelo menos é isso que eu penso que seja, mas certezas… não tenho.), como dizia, tão cheios de umami que nos enchem o estômago com as mesmas falácias com que inundamos o espírito… Ora pois ele são as filhoses, ou filhós, para alguns (e o mais importante e interessante é que não só há divergências linguísticas mas na própria concepção do prato, se compararmos as diferentes receitas o único ponto em comum que encontramos é serem feitas quási exclusivamente no Natal…), ele são os mexidos (ou formigos, lá estão outra vez as incongruências linguísticas/culturais/regionais, ou apenas imbecis…), as rabanadas, o bolo rei e as broas (estes produtos, citados acima, e agora, de caracter industrial, subordinados a ditames bruxelianos que me fazem gritar: “Onde raio está o brinde e a merda da fava!?”… a mim que não gosto de bolo rei…), e outros doces afins, que não tenho, infelizmente, a suficiente cultura gastronómica para os conhecer a todos.

Para acabar (que vai longa a diatribe), vou resmungar contra o bacalhau; a sério: Que raio de ideia é esta de comer “Bacalhau com todos” na noite de Natal? Só se for pelo nome, que, de alguma maneira parece evocar a “união familiar” pretendida na época… porque pelo prato em sí?... Não!

A sério, somos portugueses, orgulhamo-nos das mais de mil maneiras de preparar bacalhau, e é isto que temos para apresentar na noite de Natal? Supostamente somos cristãos, e na noite em que celebramos o nascimento do Cristo comemos o prato de bacalhau mais simples e básico da culinária portuguesa?! Que pelo menos fosse o “Bacalhau Espiritual” que é igualmente pobre de ingredientes mas tem um nome mais apropriado!

Não me lixem (ou continuem a lixar-me, que sei que a minha opinião tem pouco valor), o Natal é uma seca, e não tem nada a ver com as “estórias” que contam à sua volta e as parvoíces com que o tentam justificar!

Sei que a minha diatribe pseudo-niilista não conta para nada, no fundo sou apenas mais um ateu a resmungar… Por isso vos deixo com as palavras de António Gedeão, no final do seu poema intitulado: “Dia de Natal”

(…)

Jesus

o doce Jesus,

o mesmo que nasceu na manjedoura,

veio pôr no sapatinho

do Pedrinho

uma metralhadora.



Que alegria

reinou naquela casa em todo o santo dia!

O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,

fuzilava tudo com devastadoras rajadas

e obrigava as criadas

a caírem no chão como se fossem mortas:

Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.



Já está!

E fazia-as erguer para de novo matá-las.

E até mesmo a mamã e o sisudo papá

fingiam

que caíam

crivados de balas.



Dia de Confraternização Universal,

Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,

de Sonhos e Venturas.

É dia de Natal.

Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.

Glória a Deus nas Alturas.





P.S.- Sei que estais neste momento a pensar nas tais criancinhas queimadinhas, na quadra duma música parva que eu utilizei para dar início ao texto… Se tendes essas imagens na mente; bem-vindos ao Natal; problema vosso! Eu não sou a vossa consciência!

Já me basta com ser a minha…
Feliz Natal…

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