(Uma visão
niilista sobre a época e festividades Natalícias…)
“É napalm é napalm,
Morrem criancinhas,
É napalm é napalm,
Todas queimadinhas,
(…)”
A
cidade está em alvoroço! Nas redes sociais, diariamente, repetem-se as intervenções
que nos dão conta do descontentamento dos cidadãos preocupados. Há perto de
dois meses, pelo menos, que a publicidade nos bombardeia com ideias de gasto e sugestões
de compra, para podermos usufruir de forma condigna o Natal; e na nossa cidade
o que acontece? Nada. Outras cidades, com grande pompa e circunstância, já
inauguraram imensas árvores de Natal, capazes algumas delas de concorrer ao
livro Guiness, e o nosso Município nem uma lâmpadinha pendurou ainda; e isto
apesar de os supermercados já andarem lançados a promover o bacalhau, de o bolo
rei já deitar a “cabeça de fora”, e das broas castelar fazerem o seu
ressurgimento anual…
É inconcebível,
é inadmissível!
É justo e
necessário que os exasperados cidadãos se manifestem e revoltem contra tal
estado de coisas!
(Por outro lado apetece-me salientar
como é bom viver numa cidade em que a máxima preocupação dos seus cidadãos é a
iluminação de Natal; ou a falta dela. Mas
que isto não sirva de nenhuma maneira para desculpabilizar os edis perante tão
grave falha.)
Porque o
que é o Natal senão esta furibunda corrida ao consumismo? A ânsia de sair pelas
ruas entrando em todas as lojas gastando o dinheiro, que não temos, em coisas,
que não nos fazem falta? E como fazer isso sem estarmos cobertos por esse manto
de luzezinhas, habilmente dispostas em figuras diversas que nos fazem recordar a
época Natalícia? Como poder gozar esse momento sem estar sob esse manto de luz
que nos ajuda a aquecer a alma e a arrefecer a carteira?
Afinal o
que é e, mais importante, o que representa para nós o Natal?
(E, por favor, não me venham contar
a história do nascimento de Cristo; da fuga, dos romanos, do Herodes e mais o
diabo a sete…)
Fundamental
e basicamente, o Natal é, tão só, o momento ideal para gastar o dinheiro que
não nos sobra! É a época de assistir a jantares de empresa, ou de amigos, onde
vamos confraternizar com gente que não suportamos ou não queremos ver ao longo
do resto do ano. É isso mesmo, é o momento de nos embriagarmos (textualmente,
que se não o fizermos não chegamos ao fim do dito jantar) de sentimentos de paz
e de amor, fictícios (falsos, para quem não percebeu…), é a época de fazer
grandiosos (e, obviamente, mais uma vez falsos) desejos de felicidade aos
imbecis que nos lixam o juízo ao longo de todo o ano. É o momento de
inundarmos, e sermos inundados, as redes sociais com “cartões de Natal” feitos
com fotografiazinhas fofas do nosso entorno familiar, cheios de boas intenções e
desejos, falsos na sua maioria, de boaventuras, a gente a quem na realidade apenas
desejamos uma morte longínqua… Ah, que felicidade; paz e amor na terra… Pelo
menos temporariamente… Para todos… ?! … Para alguns… Para os que quero, ou que
me apetece… Ou não, que se lixe!
Mas
aparte toda esta encenação que mais fazemos para marcar esta temporada “tão
especial”?...
Comemos!
Degustamos
pratos únicos e especiais, pelos quais passamos os outros onze meses a babar…
Pratos únicos e tão cheios de umami (que não faço a mínima ideia do que seja,
mas é adjectivo muito usado na gastronomia moderna e internacional para definir
coisas muito especiais e saborosas, ou pelo menos é isso que eu penso que seja,
mas certezas… não tenho.), como dizia, tão cheios de umami que nos enchem o estômago
com as mesmas falácias com que inundamos o espírito… Ora pois ele são as filhoses,
ou filhós, para alguns (e o mais importante e interessante é que não só há divergências
linguísticas mas na própria concepção do prato, se compararmos as diferentes
receitas o único ponto em comum que encontramos é serem feitas quási
exclusivamente no Natal…), ele são os mexidos (ou formigos, lá estão outra vez
as incongruências linguísticas/culturais/regionais, ou apenas imbecis…), as
rabanadas, o bolo rei e as broas (estes produtos, citados acima, e agora, de
caracter industrial, subordinados a ditames bruxelianos que me fazem gritar: “Onde
raio está o brinde e a merda da fava!?”… a mim que não gosto de bolo rei…), e outros
doces afins, que não tenho, infelizmente, a suficiente cultura gastronómica
para os conhecer a todos.
Para
acabar (que vai longa a diatribe), vou resmungar contra o bacalhau; a sério: Que
raio de ideia é esta de comer “Bacalhau com todos” na noite de Natal? Só se for
pelo nome, que, de alguma maneira parece evocar a “união familiar” pretendida
na época… porque pelo prato em sí?... Não!
A
sério, somos portugueses, orgulhamo-nos das mais de mil maneiras de preparar
bacalhau, e é isto que temos para apresentar na noite de Natal? Supostamente
somos cristãos, e na noite em que celebramos o nascimento do Cristo comemos o
prato de bacalhau mais simples e básico da culinária portuguesa?! Que pelo menos
fosse o “Bacalhau Espiritual” que é igualmente pobre de ingredientes mas tem um
nome mais apropriado!
Não
me lixem (ou continuem a lixar-me, que sei que a minha opinião tem pouco
valor), o Natal é uma seca, e não tem nada a ver com as “estórias” que contam à
sua volta e as parvoíces com que o tentam justificar!
Sei
que a minha diatribe pseudo-niilista não conta para nada, no fundo sou apenas
mais um ateu a resmungar… Por isso vos deixo com as palavras de António Gedeão,
no final do seu poema intitulado: “Dia de Natal”
(…)
Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.
Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das
portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.
Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.
Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.
P.S.- Sei que estais neste momento a pensar nas tais
criancinhas queimadinhas, na quadra duma música parva que eu utilizei para dar início
ao texto… Se tendes essas imagens na mente; bem-vindos ao Natal; problema
vosso! Eu não sou a vossa consciência!
Já me basta com ser a minha…
Feliz Natal…
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