sábado, 10 de dezembro de 2016

A Cidade… peculiar.

Peculiar:

pe.cu.li.ar . pəkuˈljar
adjectivo de 2 géneros
1. que diz respeito a pecúlio
2. próprio ou específico de uma pessoa ou coisa; particular; especial
3. invulgar
Do latim peculiāre-, «idem»

peculiar in Dicionário infopédia da Língua Portuguesa sem Acordo Ortográfico [em linha]. Porto: Porto Editora, 2003-2016. [consult. 2016-12-09 09:03:03]. Disponível na Internet: https://www.infopedia.pt/dicionarios/lingua-portuguesa-aao/peculiar

É no que dá passar uns dias fora d’A Cidade e dar às redes sociais a mesma importância que a um qualquer opúsculo sobre a plantação de pepinos em terrenos pantanosos, um gajo anda sempre atrasado nos acontecimentos importantes…

Já que falo em pepinos e terrenos pantanosos, e agora que o vejo falo também, traz-nos este tema ao tema desta coisa, e já agora coisa também ajuda, e…

E a razão de tantas voltinhas introdutórias (mais uma piada sem querer), é peculiar, em todos os sentidos, porque estou aqui para falar duma situação peculiar, com uma estátua peculiar, que tem um báculo peculiar, dum fulano chamado Peculiar… E se para rematar todos estes prolegómenos disser que estou a falar da pila murcha dum arcebispo morto, aí sim, a coisa torna-se decididamente peculiar.

Pois é verdade, a última grande polémica d’A Cidade gira à volta da polémica estátua do arcebispo João Peculiar que segura um báculo que tem a forma de uma pila murcha.

(Faço aqui um parenteses para esclarecer que nunca me irei referir àquilo como falo, pénis ou até dildo como outras muitas gentes fazem. De falo não falo, porque falo, para mim, conjuga imagens das estatuetas de Príapo com as suas monumentais erecções, e aquilo é uma pila murcha. Pénis não digo por ser uma expressão demasiado científica e vaga para descrever aquilo que não passa de uma pila murcha. Dildo, bem, dildo… de quem lhe chama dildo parece-me ver às vezes um misto de fome e inveja, o que é ainda mais triste se pensarmos que aquilo é apenas uma pila murcha.)

(E dedico este segundo parenteses a todos aqueles que como não habitam n’A Cidade acham que o termo pila murcha é um exagero ou um recurso espúrio de humor duvidoso; por favor pesquisem nas imagens do Google por: “peculiar braga”… depois continuaremos…)

Acontece, aconteceu, que desapareceu a pila murcha do arcebispo, na realidade desapareceu a estátua inteira, mas como a estátua é famosa apenas por aquela particularidade, que se não fosse por ela seria apenas mais uma, estátua dedicada a uma figura eclesiástica das várias (muitas) que andam espalhadas pel’A Cidade, pois se aquela particularidade e apenas aquela particularidade fez da estátua famosa então é aquela particularidade que chama à atenção com o seu desaparecimento. Concedo que seria muito mais espectacular se apenas aquela particularidade tivesse desaparecido, mas não, foi todo o conjunto escultórico e disso irei falar.

(Fui instado a tentar ser menos grosseiro, e a usar menos o termo “pila murcha”, por muito adequado e perfeitamente descritivo que seja; e tentei, como se pode ver no parágrafo acima, tentei e não gostei, não gosto de eufemismos. Se não queriam que eu usasse a expressão não lhe fizessem o báculo assim. Voltemos então à pila murcha do arcebispo morto.)

Como eu dizia a pila murcha desapareceu sem dar cavaco a ninguém, facto perfeitamente normal se pensarmos que: pilas, murchas ou não, são pouco atreitas a dar explicações acerca das suas idas e vindas; arcebispos mortos também não são famosos pela sua loquacidade; e estátuas só cantam na ópera. Mas pronto desapareceu a pila a estátua e a base, só ficou um buraco no chão e uma enorme incerteza e ansiedade quanto ao destino da tão querida, pila murcha. Perante tão peculiar acontecimento a cidadania manifestou, veementemente, a sua preocupação pelo facto; como mencionei no início deste texto as redes sociais foram o primeiro fórum onde essa mesma preocupação veio a público, outras manifestações, mais físicas, se seguiram, como a colocação de vários letreiros ao redor do buraco com frases como: “Devolvam o peculiar”, “Que mal vos fez o peculiar?”, “O peculiar é arte”, “Salva o peculiar”, e outras de que não tenho constância (nem paciência para procurar). Toda esta militância cidadã culmina com uma vigília, organizada no próprio local com convocatória feita através das redes sociais (#devolvamopeculiar).

Tão grande burburinho em volta de uma pila murcha acabou por chegar à “Imprensa Nacional”, através da revista Sábado, que, de forma sucinta, nos conta a história da dita estátua e da problemática da dita pila murcha, citando para isso declarações feitas na altura da colocação (2003) da… peça; diz o bispo auxiliar: “Todos entendemos a questão da estátua e do báculo. É de uma enorme deselegância e não respeita o enquadramento arquitectónico do largo onde está colocada. É uma escultura infeliz” (não sei se a infelicidade da estatua se relaciona com o facto de ter uma pila murcha, ou se será outra a infelicidade…); já o presidente da junta se lamentava dizendo que lhe custava: “ver turistas agarrados a fazer graçolas” (não creio, nem ele, nem a revista que seja necessário explicar a que é que os turistas se agarravam…); já o presidente do município à altura dizia, secamente, não ter tempo para se preocupar: "com essas coisas" (na realidade não há noticia que esse presidente alguma vez se preocupasse com essas coisas, com outras murmura-se à boca pequena que sim, mas com essas não!...) Graças às diligências dos jornalistas do citado órgão de comunicação social ficámos a saber que a decisão de retirar a dita… estátua foi da diocese, que pretende instalar nesse local uma estátua dedicada a Frei Bartolomeu dos Mártires. Ficando agora a Câmara Municipal com a pila murcha, perdão a estátua, na mão à procura dum sitio para a meter. Ficámos também a saber que a edilidade pretende "homenagear todos os anos uma figura importante na história d’A Cidade", que apoiou "o conceito e projecto da nova estátua" e que "A ideia é alternar entre figuras religiosas e civis". Neste caso alterna-se dum bispo para um frade…

(A verdade é que esta ideia dos edis d’A Cidade me preocupa um pouco, temo começar a assistir a engarrafamentos pedonais, causados por excesso de tráfego estatuário… mas isso é tema para outra diatribe.)

Fica por resolver a questão da colocação da dita coisa, o referido artigo nada diz acerca disso, mas já ouvi as más-linguas que pululam por aí já dizer/sugerir que a estátua da pila murcha será ou deveria ser colocada junto à Rua de Santo António das Travessas. Pelo que me contaram habitantes mais antigos da cidade essa rua foi em tempos conhecida pela profusão de prostíbulos. Talvez seja a melhor solução aos pruridos levantados pela pila murcha. Talvez o cheiro da memória do local transforme o triste báculo em lança impante, transformando-se assim numa homenagem mais justa a tal figura eclesiástica.

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