segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Madame “Popcorn” Butterfly




(ou: A Night At The Opera”)

Assumo que sou “snob” em certas coisas; “snob” e penosamente conservador!
(Já noutras sou total e apaixonadamente anarca, libertário, ou simplesmente louco…)
Servem estas frases como introdução ao relato da minha experiencia na sexta-feira passada, assim vocês entram no texto, e no contexto,  já com uma pequena ideia de quem eu sou, ou pelo menos da confusão que vai dentro desta cabecinha.
Na citada sexta-feira fui à Ópera; que por acaso é uma coisa que eu adoro fazer, e que não faço tão amiúde como gostaria, o que faz com que quando vou pareça um adolescente cheio de borbulhas a caminho do seu primeiro encontro sexual com a Mrs. Robinson depois de ter visto a Barbarella antes de sair de casa.
Acho que já perceberam o estado de feliz ansiedade em que me encontrava, ainda por cima ia ver a Madame Butterfly, uma das minhas favoritas, e, para ajudar à festa, ia entrar pela primeira vez na minha vida numa praça de touros, a do Campo Pequeno, neste caso, e, embora seja profunda e radicalmente anti-taurino (de bom grado me ofereço para encher de bandarilhas o lombo de todos os amantes da tortura animal!), a verdade é que sempre gostei daquele edifício e considero extremamente feliz a ideia de utilizar aquele espaço construído a pensar em morte e tortura para apresentar beleza e arte, será talvez uma forma de “redimir” o edifício.
Tudo se perfilava para que fosse uma noite memorável! (…e foi, mas…)
Posto isto, assim estava eu ao entrar no Campo Pequeno, com o cérebro, os sentidos e a vontade completamente abertos e desejosos de absorver tudo!... E absorvi! Absorvi tudo, e logo à entrada, assim sem aviso, a sangue-frio, à queima-roupa…
Neste momento estareis a interrogar-vos sobre o que é que eu absorvi logo à entrada: talvez a imponência do edifício, a ansiosa impaciência de todos os amantes de música que me rodeavam, ou ainda, quiçá, maviosos sons vindos do fosso da orquestra enquanto os músicos afinavam os seus instrumentos…?
Pois não, nada disso, o que me atingiu, com a contundência dum martelo pneumático manejado por um exímio trolha de 130 kilos de peso que nas horas livres faz musculação, foi o cheiro a pipocas!
PIPOCAS?! Perguntareis vocês, com a mesma incrédula estranheza que me assaltava a mente ao mesmo tempo que o cheiro a pipocas me assaltava as pobres narinas. Sim, pipocas!
Logo ali entre a entrada e as escadas de acesso à bancada estava um senhor com uma daquelas máquinas portáteis, tipo carrinho de mão, daquelas que vemos nas feiras, nas romarias, nas festas populares; dessas! E, com um ar de felicidade alarve, várias pessoas se dirigiam para o interior, carregadas com aqueles caixotes de cartão cheios de… pipocas!
Ora, a mim, já no cinema essa moda do caixote de pipocas me incomoda. Não consigo perceber essa necessidade quase compulsiva de entrar numa sala de cinema com os braços cheios de coisas (coisas de comer, entenda-se), como se fosse uma forma de “multi-tasking” recreacional; sei lá, se calhar estamos tão faltos de tempo livre que o pouco que temos o aproveitamos para simultaneamente satisfazer vários anseios e necessidades (mas depois para combater a obesidade reduzimos o tamanho dos pacotes de açúcar pró café…). Mas, eu, com isso não tenho nada a ver, cada um sabe de si e tem o direito de fazer o que quiser, mas eu também tenho o direito de assistir à porra do filme descansado, e de ouvir a banda sonora do mesmo sem o acompanhamento em primeiro plano dos roedores de pipocas!
No dia em que me apetecer assistir a um concerto de ruminação pego numa cadeira e vou pró prado ver as vacas!
Mas em abono da verdade devo reconhecer que consegui ouvir a ópera (apesar da qualidade do som, mas isso é outra história). A verdade é que o barulho da ruminação foi inexistente, ou, pelo menos, inaudível para mim. Mas com o cheiro tal não aconteceu, esse foi imanente. Embora tenha que pôr a hipótese que talvez fosse apenas eu que eivado de paranóicos pensamentos persecutórios tenha criado uma imaginária nuvem de cheiro a pipocas que me rodeava e atormentava ao longo de todo o primeiro acto.
Costuma dizer-se que tudo na vida tem um fim e, felizmente, o primeiro acto também… E quando as luzes se acendem, para meu grande espanto, assisto a uma decidida e perfeitamente coreografada, invasão do recinto por um grupo de senhores que de tabuleiro pendurado ao pescoço avançam por entre o público anunciando em sonoras vozes (nalguns casos mais audíveis que… bem não interessa…) os produtos que tinham disponíveis para venda que eram: queijadas de Sintra e… já adivinharam?... é claro: PIPOCAS!
Alegre e animadamente os meus companheiros de bancada iam fazendo sinal aos vendedores e comprando os seus produtos, aí percebi: estar duas horas seguidas sem dar ao dente é duro, é quase castigo cruel e inusitado, eu consigo; mas isso é porque sou gordo e o meu corpo pode roer-se a si próprio, mas por dentro, sem espaventos, sem espectáculos, sem sons ruminantes; silenciosamente… Aí, desisti, não vale a pena continuar a dar voltas ao tema, as pipocas estão aqui para ficar, eu é que estou mal, pelos vistos, e quem está mal muda-se, ou cala-se, que foi o que eu fiz (embora até esse momento não tivesse dito nada em voz alta, que estava ali sozinho e não preciso de fazer publicidade aos meus níveis de loucura, mas no interior do meu cérebro ouvia-se uma arenga veemente e ininterrupta desde o primeiro bafo a pipoca).
Ao longo do segundo (e terceiro) acto assisti (só eu, o resto do público não, que isto fazia parte de um insólito e triste espectáculo particular) a um crescendo das dores no meu joelho, provocadas quiçá, pela estranha posição em que me vi obrigado a estar sentado. Os assentos do Campo Pequeno são bancadas, todos sabem que bancadas são uma coisa assim tipo escada mas para maior onde pessoas humanas se sentam para assistir a coisas diversas (também há um tipo específico de bancada onde grupos, muito restritos, de humanos se sentam para inventar maneiras de lixar a vida a outros humanos e fazer umas sonecas, mas essas estão situadas em casas para lamentar), então no Campo Pequeno também há das tais bancadas onde pessoas humanas se sentam para assistir a coisas. Essas bancadas estão neste momento cobertas por uma coisas assim parecidas com cadeiras, mas tipo miniatura (estão para as cadeiras a sério assim como aquelas garrafinhas que estão nos frigoríficos dos quartos de hotel e que são iguaizinhas às garrafas a sério, até no preço, mas que depois quando bebes só te dão uma coisa, assim, tipo, a memória do whisky e não o prazer de o beber, basicamente é como se fosse uma versão homeopática da coisa). Confesso que quando entrei (e apesar de me teres avisado acerca disso Rui) nem reparei muito nas cadeiras, talvez por estar entorpecido física e mentalmente pelo cheiro a pipocas, apenas procurei o meu lugar e sentei-me (… sentei-me entenda-se aqui única e simplesmente como uma forma de expressão, porque quando o assento é do tamanho da minha nádega esquerda, dizer sentei-me não descreve o tipo de manobra que eu tive que executar, mas avancemos pelo texto fora com este conceito, o do sentar, para descomplicar as coisas…). Durante a segunda parte o equilíbrio entre o assalto da nuvem de gás pipoca e o incómodo do assentamento foi-se invertendo, embora ao contrário do que possa parecer por tudo aquilo que disse até aqui deixar de sentir os odores para sentir as dores não é boa transição.
Ainda bem que aquelas bancadas são tão inclinadas, mexi-me tanto, saltitei tanto na cadeirinha alternando entre nádega e nádega no assento, que se não fosse a inclinação a pobre moça sentada atras de mim teria tido um torcicolo a tentar ver o espectáculo.
Eu, no fim, olhando bem para aquelas bancadas, cobertas com aquelas cadeirinhas vermelhas, quase que me pareceram uma instalação daquela senhora que está muito na moda e que faz assim umas coisas com sapato e panelas e talheres assim amontoados que depois tem uns significados extremamente profundos e complexos, que tem que ser explicados porque não são óbvios para ninguém, mas claro que isso só acontece porque somos um bando de bestas incultas. E na realidade que bela homenagem seria aos animais torturados e assassinados naquele espaço: as cadeiras são vermelhas, numa clara alusão ao sangue derramado, e o incómodo que nos tortura as nalgas durante duas horas deve servir para sentir-mos alguma empatia pelo animal… Ou não.
Cheguei ao fim do espectáculo em grande sofrimento e profundamente irritado; não estava irritado com o sacana do americano por aquilo que fez à pobre rapariga, estava irritado com as pipocas. Chorei lagrimas de sangue dum olho solitário, não pelo suicídio de Butterfly, mas pelas estúpidas cadeiras…
Na verdade tenho que reconhecer que as minhas expectativas e os meus desejos se cumpriram; foi uma noite memorável. Dolorosa e olorosamente memorável.

P.S. – Hoje é segunda-feira, precisei destes dias todos para me distanciar o suficiente das pipocas para conseguir escrever esta diatribe, mas enquanto escrevo isto no comboio que me leva de volta a casa, discretamente cheiro a camisa para ver se já passou o cheiro a pipocas…

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